Módulo 05

Farmacologia do sistema cardiovascular

IECA, pimobendan, diuréticos, beta-bloqueadores e antiarrítmicos: mecanismos, indicações e cuidados.

Módulo 05Cardiovascular

Por que o coração insuficiente piora sozinho?

Na insuficiência cardíaca, o débito cai e o organismo ativa o sistema nervoso simpático e o sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA). No início isso compensa, mas cronicamente causa vasoconstrição, retenção de sódio e água, congestão e remodelamento. Os fármacos atuam em três frentes: tirar congestão (diuréticos), melhorar a bomba (pimobendan) e frear a resposta neuro-hormonal (IECA, espironolactona, β-bloqueadores).

IECA (inibidores da ECA)

Mecanismo: Bloqueiam a enzima conversora de angiotensina: ↓angiotensina II e ↓aldosterona → vasodilatação arterial e venosa, menor retenção de Na⁺/água e menor remodelamento cardíaco.

Exemplos: Enalapril, benazepril, ramipril.

Uso: Insuficiência cardíaca congestiva (ICC) em cães (DMVM, CMD), hipertensão e proteinúria renal em cães e gatos.

Atenção: Hipotensão, azotemia e hipercalemia. Monitorar creatinina e potássio 7–14 dias após início. Cautela com diuréticos em altas doses, AINEs e desidratação.

Pimobendan (inodilatador)

Mecanismo: Sensibiliza a troponina C ao Ca²⁺ (↑contratilidade sem ↑consumo de O₂ relevante) e inibe PDE-III (vasodilatação arterial e venosa).

Exemplos: Pimobendan (Vetmedin®).

Uso: ICC por DMVM e CMD em cães; DMVM estágio B2 retarda o início da ICC (estudo EPIC); CMD pré-clínica em Dobermann (PROTECT).

Atenção: Evitar em cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva e estenose aórtica/pulmonar. Administrar em jejum melhora absorção. Pode causar vômito e arritmias.

Diuréticos

Mecanismo: De alça (furosemida, torasemida): bloqueiam Na⁺/K⁺/2Cl⁻ na alça de Henle — os mais potentes. Poupadores de K⁺ (espironolactona): antagonizam aldosterona. Tiazídicos (hidroclorotiazida): túbulo distal.

Exemplos: Furosemida, torasemida, espironolactona, hidroclorotiazida.

Uso: Edema pulmonar e efusões da ICC (furosemida é base do resgate). Espironolactona adiciona bloqueio de aldosterona e antifibrose.

Atenção: Desidratação, azotemia, hipocalemia (alça/tiazídicos) ou hipercalemia (espironolactona + IECA). Usar a menor dose eficaz; espironolactona pode causar dermatite facial em gatos.

Beta-bloqueadores

Mecanismo: Antagonizam receptores β₁ (e β₂ nos não seletivos): ↓frequência cardíaca, ↓contratilidade, ↓condução AV e ↓consumo de O₂; aumentam tempo de enchimento diastólico.

Exemplos: Atenolol (β₁-seletivo), propranolol (não seletivo), esmolol (IV, ultracurto), carvedilol (β + α₁).

Uso: Taquiarritmias supraventriculares, cardiomiopatia hipertrófica com obstrução em gatos, hipertireoidismo felino (controle da taquicardia), feocromocitoma (após α-bloqueio).

Atenção: Não iniciar em ICC descompensada. Bradicardia, bloqueio AV, hipotensão; não seletivos podem causar broncoespasmo. Retirar gradualmente.

Resumão para prova

IECA

↓Angiotensina II e aldosterona; vigiar rim e K⁺.

Pimobendan

Sensibiliza Ca²⁺ + inibe PDE-III = inodilatador.

Furosemida

Diurético de alça, mais potente; resgate do edema pulmonar.

Espironolactona

Antagonista da aldosterona, poupa K⁺.

β-bloqueador

↓FC e contratilidade; nunca em ICC descompensada.

Lidocaína

Classe Ib, TV em cães; cautela extrema em gatos.

Referências: Merck Veterinary Manual (Cardiovascular Pharmacology); consenso ACVIM para doença valvar mitral em cães (Keene et al., 2019). Doses dependem de espécie e avaliação médico-veterinária.